Com o atual governo e seus desgovernos, eis que um momento que vivi na minha infância, através de meus pais, agora me vem à tona, só que desta vez o pai sou eu... o DESEMPREGO...
Sim... após 18 anos trabalhando como terceirizado em uma empresa Estatal, sem nenhum reconhecimento, mérito sobre tal, eis que o fantasma do desemprego se encontra novamente em minha vida...
Contam meus pais que quando eu nasci eles só tinham a casa e um fogão... E que por obra de Deus, meu pai, semi analfabeto e minha mãe, costureira de mão cheia, conseguiu um emprego numa grande multinacional... A Philip Morris. Uma fábrica de cigarros, que ele chamava de Souza Cruz... Era uma baita empresa. Motivo de felicidade para meu pai, que até então estava desempregado e passando necessidades com minha mãe. Conta-se que esta empresa, representada por seus gerentes e amigos de trabalho, se juntaram e adiantaram o salário de meu pai, permitindo assim que ele comprasse o meu berço e a geladeira. Geladeira esta que eles ainda possuem e a restauram, conservam até os dias presentes; em perfeito funcionamento... Talvez como uma lembrança viva de tudo que eles passaram e tudo que aconteceu a partir dali.
Pois bem. Era uma empresa com outro tipo de mentalidade com seus funcionários. Bolsa escola, pagavam 50% da minha escola, alguns auxílios extras, plano de saúde da Golden Cross... eu me amarrava naquele cartãozinho dourado que volta e meia eles trocavam e meu pai me dava o antigo... um bom salário, enfim, condições dignas de se viver.
Lembro-me talvez de ter ido uma, ou no máximo duas vezes a um hospital público... são lembranças vagas... paredes azul bebê, cheiro de algum remédio que eu não sei, choros, pessoas de branco e meus pais indo de um lado para o outro comigo a tira colo...
Meu pai era cortador gráfico. Viveu sozinho a vida toda. Seus pais se foram logo cedo e sua irmã foi pega por uma família para ser cuidada, mas naquele estilo antigo em que se adotavam crianças... para serem "empregadas" da casa... com todo carinho e cuidado, mas empregada!!! Bem jovem meu pai veio da Bahia para o Rio de Janeiro, tentar a sorte... nos dias de hoje sempre o comparo como o meu único e maior herói!!! E o motivo pelo qual me espelho e tento suportar as dificuldades...
Não eram poucas as vezes em que via meu pai chegar chorando em casa, por ver algum amigo decepado pela guilhotina das máquinas que cortavam papel, ou até mesmo morto por alguma bobina de papel que viria a cair sobre algum funcionário... Na minha cabeça de criança, sempre me espantava com isso... como é que uma bobina de papel, tão pequena pode matar alguém... depois, muito tempo depois, sobre caminhões gigantescos é que fui entender qual bobina de papel meu pai se referia...
Os momentos felizes também existiam... nas festas de fim de ano eram completas... churrasco na empresa, chopp (sim... meu pai achava que dar chopp ao filho era um sinal de masculinidade... olha!!! Ele já bebe!!! Já é um homenzinho...) e também as excursões para o Tivoli Parque da Lagoa... nossa... só de lembrar meu coração já se enche de alegria... Carrinhos de batida, pista de corrida, a casa fantasma, a montanha russa... tudo pago pela empresa!!!
Passado algum tempo veio a crise... crise esta que não faço ideia de qual governo ou desgoverno tenha ocorrido... os únicos políticos que me lembro na época era um tal de Figueiredo e seus pronunciamentos bem na hora da novela e um outro tal de Delfim que de alguma forma que eu não sei explicar estava atrelado ao cofrinho do Banco Nacional que eu ganhei de presente de alguém que também não me lembro... enfim as tormentas da vida... a empresa fechou as portas e com ela a felicidade de muitos funcionários...
E a partir dali tudo mudou para meu pai... sempre triste, preocupado, sério, procurando emprego de galho em galho, conseguindo as piores oportunidades que o mercado poderia oferecer... Trabalhava à noite, varava a madrugada, pegava conduções lotadas, trem lotado, ganhava pouco... e sempre com minha mãe por perto costurando dia e noite... seus assobios e cantos de músicas tão suaves como "eu daria a minha vida para te esquecer", de Roberto Carlos, cantada chorosamente por Martinha e tão bem interpretada por minha mãe ao costurar enquanto eu ficava deitado na cama lendo algum gibi, também se calaram... Aos meus sentidos de criança tudo que me lembro dessa época era do cheiro da bolsa de couro que meu pai carregava e do beijo com a barba por fazer que ele me dava no rosto em algum momento da madrugada e de minha mãe preparando a marmita de alumínio e colocando numa toalhinha verde para ele levar e logo após, ainda escuro o barulho da máquina de costura sendo pedalada. No mais, eu só o veria no dia seguinte...
E assim se passaram os tempos. Eles nunca deixaram faltar nada que eu precisasse. Pagaram todos os meus estudos, curso de inglês, pré militar, curso de informática e até um curso de violão. Meu pai conseguiu, depois de muita luta um emprego "menos ruim" no Jornal do Brasil, na gráfica deles que ficava na Avenida Brasil... Dessa época eu lembro das revistas de entretenimento que acompanhavam o jornal e a revista MAD que meu pai sempre trazia pra mim... Logo depois veio o glaucoma e meu pai foi aposentado por invalidez. Logo o meu herói, meu guerreiro, a minha força e inspiração para todos os momentos, se encontrava praticamente cego e dependente da boa vontade de seu filho e de sua esposa...
Nessa época eu havia passado para a Marinha... 15 anos de idade, ser Aprendiz de Marinheiro, ganhar mais de mil cruzeiro, conhecer o mundo inteiro sem gastar nenhum tostão... É... a vida real foi bem diferente da música... Tudo que passei lá dentro foram humilhações e pressões psicológicas que me levaram à conclusão de que eu poderia tentar algo fora de lá. E foi o que fiz. Enfrentei minha mãe e tomei coragem para dizer que não queria aquilo para mim. Meu pai e minha, agora, esposa me apoiaram!!! Mas minha mãe até hoje não me perdoa por essa "loucura" de ter saído...
Eu era jovem, não tinha muitos compromissos, não tinha filhos nem dívidas pra pagar... Aquele era o momento... Não que eu não sabia de todo o sofrimento que eles passaram e que não desejavam, de jeito nenhum que eu também experimentasse daquela dor... mas eu precisava conquistar a minha vida, buscar a felicidade... Juntei o pouco de coragem que eu tinha e parti para a luta.
Com o dinheiro da indenização só deu pra comprar um antigo PC 386 vindo do Paraguai, que meu professor de manutenção de computadores estava vendendo... Comprando o jornal O Dia todos os dias minha mãe fazia buscas incessantes por oportunidades de emprego. Seu olhar era uma lupa minuciosa que detectava e anotava todas as possíveis oportunidades e lá ia eu atrás de uma nova oportunidade. Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Nilópolis, Centro...
E nas entrevistas de emprego aprendi muitas coisas... Não importava o quão graduado ou não era o seu curriculum... Se ele é pra ser seu, ele será!!! Vi muita gente chegando confiante, já de acordo com o entrevistador, tudo meramente teatral e talvez para se cumprir algum ritual de recursos humanos ou alguma prática habitual de cartas marcadas...
Mas Deus, como sempre desde o início, me deu mais uma forcinha e eu fui parar lá em Nova Iguaçu mesmo, numa cooperativa de vendedores... Para ser auxiliar de escritório... salário de cento e vinte reais... Mas nada nesse mundo me tirava o prazer e a sensação de liberdade, não vista nem entendida por muitos que era poder entrar num restaurante, escolher minha refeição e comer num prato de porcelana e não uma bandeja de ferro feito um prisioneiro... Acho que eu era a criatura mais feliz naquele pequeno botequinho no centro de Nova Iguaçu... Logo depois fui promovido a digitador e mais tarde com uma constante ajuda de um recém amigo da igreja, fui dando meus passos como programador. E dois anos depois, com a mesma ajuda deste rapaz eu fui chamado para uma entrevista nesta empresa que estou até hoje.
E agora chegou a minha vez de enfrentar mais uma vez essa tormenta que a vida me apresenta feito um mar revoltoso e angustiante. Só que dessa vez com mais pessoas no barco. Talvez, láaaa, bem no futuro, meus filhos possam contar aos filhos deles que tudo que se lembram dessa época, de alguma forma já bem confusa, é que na televisão aparecia uma senhora de topete e roupas vermelhas que aparecia sempre na hora da novela e todos batiam panelas... aplausos? e um tal com nome de peixe marinho sem um dos tentáculos e que não era o Lula Molusco do Bob Esponja...
A única certeza que tenho é que Deus está comigo e que tenho a meu pai como inspiração para nunca desistir e lutar pela felicidade dos meus até o fim de minha vida!!!