sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O futuro de seu filho depende de você...

Hoje pela manhã indo buscar Moisés da escola vi um Outdoor com esses dizeres " O futuro de seu filho depende de você"... até agora não entendi se era uma propaganda ou um recado celestial... é... um recado de Deus!!!
Dias atrás passei por um dos supostos "pais biológicos" de meus filhos... ele estava na rua, num sol de meio dia, com mais uma criança... colocando ela pra lavar carros... Aquela cena me causou uma revolta tão grande... Ele não faz a mínima idéia do mal que causou para o Moisés, para o Biel e para as prováveis crianças que passarão pela vida dele, como aquele menininho loirinho, sem camisa, seus 5 anos de idade e em pleno sol, lavando carro... Ele não faz idéia do tamanho estrago que causou na mente do meu filho... no desenvolvimento dele, no futuro dele...
Seres tão indefesos, ingênuos, puros e sujeitos a todo tipo de maldade humana...

Nova escola

Recentemente, por um intermédio de uma amiga que tem um irmão com os mesmos "sintomas" do meu Moisés, e que por sinal também se chama Moisés, decidimos colocá-lo numa escolinha para o aprendizado.
Pela primeira vez Moisés demonstrou interesse e gostou de estar ali... chegou todo feliz em casa e já perguntando se iria pra escola no dia seguinte...
No segundo dia a professora passou aquelas lições básicas de aprendizado... passou o número 1 para cobrir e repetir e depois ao final escrever o nome dele cobrindo e repetindo...
Mas as letras e números, na cabeça do Moisés não fazem sentido algum... ele não consegue se atinar para o fato de que as letras possuem sons e que esses sons combinados formam palavras... Ele não consegue saber a razão de fazer aqueles rabiscos...
A primeira vontade que temos é de desistir de ensiná-lo, de achar que não haverá solução... Mas, estranhamente uma força veio em mim e uma decisão eu resolvi tomar: Não vou desistir de você Moisés!!!
Peguei meu computador e pensei... hoje em dia eu não preciso depender só da professora ou das outras pessoas... tenho a internet como minha aliada... Pesquisei alguns jogos educativos e comecei a "testá-lo"... e a conclusão foi a seguinte... Jogos da memória... Ele dá de 10 a zero em qualquer criança ou adulto... Jogos de relacionar objetos, ele faz perfeitamente... Identificar formas, ele faz perfeitamente e com rapidez...
Então só me veio essa certeza!!! Moisés, não vou desistir de você!!! O que eu tiver de fazer irei de fazer!!!

Moldes da sociedade

Com essas crianças tenho parado pra pensar sobre muitas coisas... E uma delas é como a sociedade nos coloca em moldes tão rígidos... e o meu pequeno Moisés não possui nenhum desses moldes... Para as pessoas em geral isso é um grande problema, pois se você não está incluso nesse molde, você não pode pertencer a esse grupo de "pessoas iguais"... Costumo dizer que o Moisés veio Zero Km... mesmo já tendo seus 7 anos aproximados de idade... Ele não sabe a diferença entre aberto e fechado, aceso e apagado, quente ou frio, letras e números não passam de rabiscos sem sentido e que não possuem nenhuma relação com os objetos ou com o que pensamos ou falamos...

Dia 25 de agosto

Já era hora do almoço quando minha esposa me liga dizendo que a guarda das crianças havia saído... naquele momento de alegria, nervosismo, medo, nada como uma grande dor de barriga em pleno meio da rua pra me causar mais desespero...

Cheguei no trabalho quase que azul... avisei a todos da notícia... muitos não aguentaram e não conseguiram segurar as lágrimas do momento... A assistente havia falado que eles deveriam ser retirados imediatamente do abrigo, pois uma vez com a guarda, a responsabilidade por qualquer coisa que pudesse acontecer a eles já era toda nossa... Saímos correndo de nossos trabalhos e fomos para o fórum pegar a guarda e logo de tardinha buscar os meninos...

Quando chegamos lá o clima já era de despedida... Moisés com um sorrisinho incontido no rosto, meio que não acreditando ainda no que estava acontecendo e Gabriel sempre carinhoso e beijoqueiro conosco... Levamos eles pra casa e a partir desse dia houve uma nova vida para todos nós... Nossas vidas se cruzaram e a partir de então nunca mais serão as mesmas... sempre tive medo do "pra sempre"... mas agora não dava mais pra voltar atrás... Não é uma decisão muito fácil mas acho que se tivesse de fazer tudo novamente eu assim faria!!!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Dicionário Moiselez

Cabói = Cowboy
Sou Framengo = sem comentários
Macarão = Camarão
A Gente vamos = sem comentários
Mecstil = Max Steel
Bulaiti = Buzz Lightear

Dicionário Bielez

Nozé = Moisés (chamando tranquilamente)
Nozézi = Moisés (chamanto irritado)
Talutu = A luz
Tala talutu = Acenda a luz
Cocô = emergência!!! Já pode ser tarde...
Tatá = Patatá
Môto = moto
Titi = Xixi
Pêca = Drica (nossa cachorra)
Tê boio = Tomar banho
Ta adu = quero água
bóooo = vamos sair pra rua...

domingo, 4 de setembro de 2011

Primeiras travessuras...

No sábado seguinte que fomos para levá-los para casa, ao ligar para a mãe social, recebemos a notícia de que Moisés havia feito uma travessura... e das grandes... pelo menos para mim... colocou um semente de coqueiro no nariz do Gabriel, e estavam todos desesperados por lá...

Não sei o que se passou na minha cabeça... foi uma mistura de muitos sentimentos... desespero, medo, nervoso... nem sei como cheguei naquele abrigo... só pensava em pegá-lo e salvá-lo daquilo... ao chegar, a mãe social já estava saindo com ele a caminho de um posto de saúde do abrigo... colocamos imediatamente no carro e fomos para lá...

Nesse dia que  constatamos o quão forte era Gabriel... fora preciso quatro mulheres do abrigo para segurá-lo, mas tudo que fizeram foi empurrar mais a semente caroço a dentro... pegamos o Gabriel e pensamos em ir para o posto do SUS... mas na minha cabeça eu pensava... ele é meu filho... custe o que custar eu vou procurar um médico particular e dar o melhor para ele... desviei a rota e fomos ao hospital Fátima... chegando lá eles disseram que não tinham um otorrino no hospital... mas que eu me dirigisse até  o hospital José Kos, na rua Moncorvo Filho... lá eles teriam o melhor atendimento para o meu caso... E lá fomos nós, 40km até o centro do Rio... e ainda demos a sorte de pegar todo o engarrafamento causado pelas pessoas que estavam indo assistir os jogos olímpicos militares... Chegando lá meu medo era grande... será que vão conseguir tirar? será que vai ser muito caro? será que vão ter de interná-lo?

Acho que nunca tive esses sentimentos, essas preocupações... Mas tudo aos poucos foi se ajeitando... a consulta ficou em R$ 180,00, e, diante de todo o sofrimento do Gabriel, aquilo para mim, pelo menos naquele momento, pareceu uma verdadeira mixaria... Depois, que você se acalma é que começa a pensar de outras formas... tipo: paguei 180 reais por uma sementinha de côco... e tudo por uma travessura...  mas o mais importante é que ele estava a salvo agora...

À noite, na hora de dormir, Gabriel teve pesadelos intensos... gritava, gemia, falava, chorava... foi uma noite bastante sofrida para todos...

Ao chegar no trabalho e contar a história aos meus amigos, descobri que 90% deles já colocaram ou tiveram alguma coisa colocada em seus ouvidos ou narizes... Desde caroços de feijão até canetas... enfim... nada que eu tivesse que ficar tão assustado...



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Durante as semanas

Durante a semana era um momento onde eu podia conversar e acertar todas as coisas com minha esposa... planejávamos formas de tratamento, de educá-los, de como nos comportar diante deles... fizemos vários acordos entre nós... e um deles era de um sempre monitorar o comportamento do outro... Moisés tem um gênio muito difícil e ele nos testa a cada momento... e nos leva aos extremos da paciência... então a primeira atitude que temos é de querer bater nele para repreendê-lo... só que não sabemos a proporção do que esse tipo de violência pode levar, ainda mais dele que teve um passado de rua bem problemático. Seu corpo possui marcas e cicatrizes espalhados em diversos lugares. Então temos a plena noção de que agir com violência com ele não será a solução. Nosso primeiro encontro em casa foi bastante traumático para nós... Eles nos testam a cada instante, testam até onde podem ir, testam o que podem fazer... e não há limites... então decidimos nos policiar quanto a isso... pois a primeira vontade que vem é de bater neles...

Graças à ajuda de alguns grandes amigos, descobrimos o método da cadeirinha do castigo... o castigo psicológico é bem mais eficaz do que o castigo físico... é impressionante... uma simples cadeira e alguns momentos de silêncio possuem efeitos corretivos maiores do que o castigo físico... Então lá em casa já adotamos a cadeirinha do castigo... Deixa-se a criança na quantidade de minutos correspondente à sua idade, e ao témino desses minutos você se abaixa, olha no olho da criança e conversa com ela refletindo com ela sobre tudo que ela fez e que não deverá acontecer e a recompensa com um abraço de reconciliação...

É um método muito interessante e que usamos constantemente lá... aos pouquinhos eles vão entrando nos eixos... bater realmente não adianta... dá um sentimento ruim na gente depois... eles são tão frágeis, tão pequeninos... por mais que "mereçam", bater é uma brutalidade... não aconselho!!!

Hora de voltar ao abrigo...

Chegando o fim da tarde de domingo, era o momento de "devolve-los" ao abrigo... Mal sabíamos o quanto aquele evento seria tão destrutivo em nossos corações... confesso que naquele primeiro fim de semana, tudo que queríamos era devolvê-los... ter de volta nossos lares, nosso silêncio de sete anos de matrimônio... nossa vida à dois...

Demos banho neles, que muito relutantes vestiram suas roupinhas do abrigo e entraram no carro muito chateados... notamos que o comportamento do Moisés começou a ficar alterado... ele, que já mexia em tudo, mexia mais ainda... abria armários, pegava as coisas, queria levar alguma coisa da casa para o abrigo... acho que dentro dele, ele queria alguma coisa pra patar a saudade... algo que ele pudesse se agarrar durante a semana de espera até a próxima visita...

Gabriel ainda não estava muito apegado a nós... então não estava ainda entendendo muito esse momento da devolução... ele estranhou um pouco, mas não foi nada muito grave... porém Moisés reclamou bastante em ter que nos deixar...

Fomos embora um tanto que aliviados... pois retornaríamos às nossas vidas rotineiras... Mas chegando em casa fomos surpreendidos por um ESTRANHO sentimento... um sentimento de vazio... aquele silêncio que estávamos sonhando já não mais me agradava... aqueles chinelinhos espalhados pela casa... brinquedos... e aquele extremo silêncio... depois veio uma vontade de chorar... um sentimento de perda, de saudade, daqueles pequenos barulhentos...

No dia seguinte...

Acordamos cedo, graças à grande disposição e eletricidade do Moisés... Gabriel ainda estava dormindo... ambos bastante resfriados, respiração difícil, tossindo bastante... Decidimos levá-los à missa como já era o nosso costume... Fiquei bastante apreensivo de como eles iriam se comportar lá... mas para nossa surpresa, eles ficam tímidos quando estão diante de muitas pessoas... e eu, sendo músico, tenho que ficar de frente com o público... Gabriel se sentou ao lado de minha esposa que é vocalista e Moisés foi se sentar ao lado de minha afilhada Larissa e seu namorado Marcelo... foi paixão à primeira vista entre eles...

Comigo vários sentimentos passavam ali naquele momento... tento entender esses sentimentos mas até hoje não consigo uma definição clara sobre esses momentos... era um sentimento de querer cuidar, de atenção, de prioridades alteradas... as coisas que antes me pareciam importantes, prioritárias, simplesmente desapareceram... tudo que eu pensava naquele momento era do bem estar deles... se eles estavam bem... se estavam gostando de estar ali...

Terminada a missa voltamos para casa, almoçamos... bem... tentamos.. pois Moisés é meio arisco para esses momentos e Gabriel quando empaca é difícil... depois fomos assistir mais DVDs... Moisés começou a se interessar por filmes... O engraçado é que ele não sabe ler nem escrever, mas você liga a televisão, pode estar passando um filme legendado e com a fala em inglês, que ele fica ali... Hipnotizado!!! Não sei o que ele entende, não sei o que passa na cabeça dele... mas a TV consegue prende-lo de uma forma absurdamente impressionante...

Hora de dormir...

Como ainda não tínhamos preparado o quarto deles, colocamos dois colchões ao lado de nossa cama para que eles pudessem dormir... a noite chegou... demos banho neles e os colocamos para dormir... Moisés do meu lado e Gabriel do lado de minha esposa... Combinamos entre nós de que eles não ficariam dormindo em nossa cama porque muitas vezes ouvimos histórias de que essas práticas acabam afastando o casal... então já estávamos preparados para aquilo... Moisés custou a dormir... ele é muito elétrico e impulsivo... foi uma noite aterrorizante... eles tiveram muitos pesadelos, gritavam, rangiam os dentes (provavelmente por motivos de vermes)... Moisés levantava a cada minuto, olhava para um lado e para o outro, como se estivesse verificando onde estava e depois voltava a dormir... Gabriel sonhava alto... tinha pesadelos, gritava, acordava chorando... depois voltava a dormir... enfim... uma noite em claro...

Exatamente às 5:30 da manhã, Moisés já estava com suas baterias plenamente recarregadas e pronto para um novo dia... E nós... acabados...

Entrando em casa

Assim que conseguimos a autorização para ficar com eles no fim de semana, fizemos diversos planos... era o feriado de Corpus Christi e eu e minha esposa temos o costume de ir fazer os tapetes... então planejamos levá-los para fazer os tapetes conosco... mas Deus sempre tem seus planos... e no caminho do abrigo para o local do evento o tempo mudou e caiu uma forte chuva, o que nos fez mudar os planos imediatamente. Levamos as crianças para nossa casa...

Grande era a expectativa de meus pais em estar com eles e recebê-los em seu novo lar... e a nossa também... assim que chegaram foram logo dando aquele abraço apertado e seguido de beijos em meus pais, que rapidamente se renderam em choros e muita emoção...

Quando eles subiram para a nossa casa, tudo parecia novidade... corriam de um lado para outro da casa... mexiam em tudo... enfim... meu mundo estava mudando... rapidamente e drasticamente... tudo estava ficando de pernas pro ar... em questão de cinco minutos minha vontade era de devolvê-los rapidamente para o abrigo... toda a calma, liberdade, tranquilidade daquele lar estava seriamente comprometida diante daquele acontecimento...

Mas respirei fundo e fui tentando aos poucos ME adaptar àquela situação... É isso mesmo... a adaptação é nossa... e não deles... Para eles é um novo mundo, um lar, tudo que eles nunca tiveram... Então aquelas duas criaturinhas exploraram cada centímetro da nossa casa... Moisés queria assistir três DVDs, brincar, mexer nas coisas, tudo ao mesmo tempo... creio que na cabeça dele passava o seguinte: No momento eu tenho isso, não sei se terei logo mais... então tenho que aproveitar... recebemos as visitas de nossos amigos que levaram lembrancinhas para eles... a receptividade era sempre boa... eles não agem como crianças mimadas que tem medo de se aproximar das pessoas... eles pulam no seu colo, te agarram, te abraçam apertado e te dão muitos beijos!!! E isso emocionou a todos que foram visitá-los...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Visitas nos fins de semana

Começamos então algumas visitas nos fins de semana... e o comportamento deles era sempre de insegurança, de disputa, de brigas, de nervosismo... não é muito fácil visitar as crianças com as outras em cima e poder dar atenção às crianças que estamos pretendendo adotar... É uma sucessão de "e eu tio!!! e eu tio!!! e eu tio!!!" que você sai de lá, vai dormir e essa frase fica se repetindo na sua cabeça a noite toda...

Daí, retornamos ao juizado para pedir se poderíamos sair com eles, pois o estar com as outras crianças não nos permitia conhece-los direito... e nos foi dada a autorização para retira-los para passeios de dia e devolver no fim da tarde...

Nosso primeiro passeio foi numa lanchonete... Os levamos numa lanchonete onde haviam alguns brinquedos... Conseguimos um contato melhor com eles... queríamos saber como seria o comportamento, as atitudes e a aceitação deles... Gabriel ficava quieto no banquinho do carro, enquanto o Moisés nos bombardeava de perguntas repetidas...
Internamente, o meu senso de organização tentava entender aquele momento e ao mesmo tempo já traçar um perfil do Moisés... mas ainda era muito cedo para entender alguma coisa sobre eles...

Chagando lá eles foram obedientes, carinhosos, brincaram nos brinquedos, lancharam, se lambuzaram de catchup... Moisés cismou que queria colocar pimenta no hamburguer dele... Afimou com todas as letras que sabia o que era pimenta... então deixamos... heheh foi muito engraçado vê-lo gritando e colocando a língua pra fora e reclamando horrores do sabor da pimenta... Nunca mais ele quis... agora ele sabe a diferença de pimenta e catchup...

Primeiro encontro

Eis que chega o sábado... chegamos cedinho lá... não sabíamos que o horário de visitas era na parte da tarde... Custamos a encontrar o local do abrigo, pois haviam 19 abrigos espalhados pelo bairro... fomos em pelo menos 2 abrigos errados antes de acertar... chegando lá fomos recebidos pelas mães sociais... e algumas crianças vieram ao nosso encontro... foi quando ela chamou: Moisés... eles querem te ver... eis que surge uma figurinha bem magrinha, um sorriso bem maroto, um olhar desconfiado e simplesmente PULA no meu pescoço e me dá um abraço super apertado... NUNCA mais vou esquecer esse momento... tentei segurar as lágrimas mas não consegui... fiquei contemplando aquela pequena criatura no meu colo... tão levinha... tão frágil... mas com uma vivência, um sofrimento talvez imensamente superior ao que eu já tivera passado em toda minha vida...

Logo em seguida veio uma criança bicuda, meio marrenta, umas bochechas enormes... com um olhar mais desconfiado ainda... abraçou minha esposa e ficamos ali os quatro... agarrados e curtindo aquele primeiro encontro...

Logo em seguida vieram as outras crianças para conhecer aqueles estranhos que estavam ali naquele momento... descemos para o playground do abrigo e lá notamos uma terrível disputa por atenção... É... aquele momento se tratava de uma grande batalha daquelas crianças tentando mostrar ali quem era o melhor para que fossem levados para nossas casas...

Um desses "guerreiros" era o Nathan... menino negro, de um rosto e sorriso belíssimos, mas que já estava passando de seus 8 anos de idade... o que diminuia consideravelmente suas possibilidades de adoção, pois nós, seres humanos, teoricamente inteligentes, só queremos bebês... pois fica "teoricamente" mais fácil de moldar... Ficamos encantados com a beleza dele e de seus três irmãos... o que dificulta mais ainda a adoção, pois dificilmente, nos dias de hoje, uma família adota e tem condições de adotar de uma vez quatro crianças... Dissemos para ele o quanto ele era lindo e, numa simples frase, ele falou: Não!!! Eu não sou bonito!!! Sou feio!!!
E nós, inocentemente perguntamos: Mas porque?
- E ele respondeu:
Ninguém quer me adotar!!!

Aquilo na hora cortou nossos corações... tentamos consolá-lo de todas as formas, mas tínhamos em mente que nós mesmos também não teríamos como adotá-lo, apesar da vontade... imensa vontade... mas depois lembramos das palavras da psicóloga, de que eles são extremamente inteligentes e manipuladores...

e aí começavam minhas primeiras percepções com essas crianças, que até então não tínhamos nenhuma noção do que poderia vir pela frente... Descobri que tinha muito mais a aprender com eles do que eles comigo...
O aprendizado, a aceitação, a adaptação teria que ser nossa... e não deles... Eles simplesmente são o que são, falam o que pensam, não precisam fingir o que não são...

Enquanto isso, Moisés começou a apresentar um comportamento mais agressivo, visto que sua "possível adoção" estava sendo colocada em risco com aquele monte de crianças disputando os pais que vieram para vê-lo...

Gabriel, pela idade,  ainda não tinha noção do que se passava e brincava naturalmente com as outras crianças...

Mais coincidências

Há cerca de um ano atrás, minha sogra havia me mostrado a foto de uma criança na qual ela auxilia através do sistema de apadrinhamento. Era uma criança muito parecida comigo... Moreninha, cabelos encaracolados e bochechas enormes... Na época que ela me mostrou eu ainda estava fazendo os exames para saber se poderia ser pai ou não... então não dei a DEVIDA atenção... Deixei pra lá... achei interessante mas deixei pra lá...
Muitas vezes nos falta coragem de tomar essa atitude de adoção. O nosso preconceito é muito grande, o nosso medo, medo do que as pessoas vão falar, medo do que a criança vai ser quando crescer, medo dela puxar aos pais biológicos, que muitas vezes possuem tantos problemas quanto seus filhos abandonados... E esse medo não me deixou seguir adiante naquela época...

A frase que mais ouvimos das pessoas é: "Que gesto bonito... também pretendemos adotar!!! É meu sonho adotar"  mas todos sabemos que essas pessoas provavelmente não irão nem se mover para que isso aconteça... o gesto é bonito, mas fazer a coisa certa é um passo muito importante e requer atitude...

E hoje em dia agradeço a Deus por minha doença, minha insuficiência, minha miséria, minha pequenez de não ter sido pai biológico, pois se não fosse por essa maneira, eu nunca iria ter coragem para seguir adiante com a adoção... Me conheço muito bem e sei que a minha covardia seria bem maior do que a atitude de adotar...

E esclarecendo, SIM. É possível ajudar as crianças dos orfanatos sem precisar adotá-las... então basta ser padrinho ou madrinha e constantemente oferecer simplesmente a sua presença para elas... Uma criança adotada não precisa de dinheiro nem de muitas coisas... ela precisa fundalmentalmente de carinho e uma especial atenção...

Pois bem... quando contamos por telefone à nossa sogra que iríamos ver duas crianças, o Gabriel e o Moisés, ela morreu de rir e mostrou novamente a foto da criança... O Gabriel era justamente aquela criança bochechuda que ela havia me mostrado há um ano atrás...

Se você não acredita na ação de Deus, eis aí uma prova viva de que nada nesta vida acontece por acaso...

De quinta-feira 13 de maio até o mais próximo sábado, nossos corações e nossas mentes só se voltavam a um só pensamento... como será o encontro? Como eles são? Por mais provas de Deus que nos fora apresentadas, será que iríamos sentir em nosso coração que eram eles que teriamos que cuidar?

Primeiros contatos

Uma semana após a visita da Assistente Social e da Psicóloga à nossa casa, recebemos uma ligação do juizado para comparecermos num abrigo, pois eles tinham lá uma criança de aproximadamente dois anos de idade, mas tinham um problema... ela tinha um irmão... de 7 anos aproximadamente... eles haviam sido encontrados na rua à meia noite e recolhidos para o abrigo. Foram encontrados abraçados um ao outro e com uma pequena mochila nas costas... Mais do que rapidamente nosso coração se encheu de alegria e a resposta foi um SIM bem grande. A minha vontade naquele momento era de largar tudo ao meu redor para vê-los imediatamente...

Ao chegar na Vara da Infância para pegar a autorização para visitar o abrigo, a assistente me deu os nomes deles... Gabriel e Moisés... aí na hora que ouvi ela falar o nome Gabriel, meus olhos se encheram de lágrimas rapidamente... Gabriel era justamente o nome que pretendíamos dar ao nosso filho... E Moisés até então para nós era um alerta de futuros problemas... estávamos com medo, pois a adoção tardia sempre trazia problemas de aceitação da criança, rebeldias, peraltices das mais diversas, pois a criança já trazia uma bagagem de vivências de rua e de maus tratos sofridos... mesmo assim seguimos em frente...

Traçando o Perfil

Terminadas as palestras, que duraram mais ou menos um ou dois meses, chegou o momento de traçarmos o perfil... estavamos cientes dos problemas da adoção que nos foram apresentados... entre eles, a adoção tardia... Crianças com mais de 5 anos de idade... então decidimos por traçar o perfil de uma criança de zero a 5 anos, sem preferência de cor ou de sexo... fomos alertados de quanto mais critérios colocássemos, mais difícil seria a busca no banco de dados...

Em geral, os casais preferem crianças recém-nascidas, o que aumenta por demais a espera, pois a fila é grande e essas crianças são imediatamente adotadas. Não passam nem pelos abrigos.
Estávamos já nos preparando para começar uma espera conforme ouvimos sempre falar, que era de dois a três anos... Era também o tempo que teríamos para nos ajustar, já ir comprando as coisas para o quarto do bebê...

Um dos testemunhos que mais me emocionaram foi o de uma senhora que foi para adotar uma criança e, chegando lá no abrigo, acabou adotando duas. Ela disse que no momento sentiu no coração que aquelas eram suas crianças e resolveu "levar duas" ao invés de uma. Conversei com minha esposa a respeito disso e decidimos abrir o leque de escolhas para essa possibilidade, caso nosso coração também mandasse adotar duas ao invés de uma. As dificuldades seriam duplicadas, tudo seria em dobro, mas mesmo assim, se nosso coração mandasse, obedeceríamos...

Enquanto isso em casa...

Quando contei a meus pais da decisão da adoção, a dúvida era geral, pois tínhamos um vizinho que adotou uma criança. Era uma criança fisicamente nos padrões que os casais geralmente buscam. Recém nascido, loiro, olhos claros, enfim, teoricamente perfeita... mas a vida tem seu próprio caminho e esse menino cresceu e não se tornou boa gente... Teve tudo para se tornar uma pessoa de bem mas não se tornou... e esse era o medo inicial de minha mãe.

Meu pai, porém já me apoiou plenamente, pois ele também fora abandonado muito cedo. Sua mãe morreu e seu pai nunca o assumiu. Sua irmã foi pega por uma família, não para ser adotada e sim para virar "empregada da casa"... naquela época era muito comum pegar crianças não para adoção, e sim para serem empregados... Meu pai se tornou então meu motivo de inspiração para prosseguir com a adoção...
Enfim, meu pai teve todas as oportunidades para NÃO ser uma pessoa de bem. Viveu na rua, aprontou muito, mas decidiu ter uma família, trabalhou a vida toda, me deu todas as condições possíveis para que eu também fosse uma pessoa de bem e, aqui estou... não sei ainda se sou exatamente o que meu pai esperava de mim, mas estou tentando a cada dia... e hoje vejo isso muito claramente. Coisas que nunca parei para pensar agora me vêem à cabeça com muita frequência...