quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Primeiro encontro

Eis que chega o sábado... chegamos cedinho lá... não sabíamos que o horário de visitas era na parte da tarde... Custamos a encontrar o local do abrigo, pois haviam 19 abrigos espalhados pelo bairro... fomos em pelo menos 2 abrigos errados antes de acertar... chegando lá fomos recebidos pelas mães sociais... e algumas crianças vieram ao nosso encontro... foi quando ela chamou: Moisés... eles querem te ver... eis que surge uma figurinha bem magrinha, um sorriso bem maroto, um olhar desconfiado e simplesmente PULA no meu pescoço e me dá um abraço super apertado... NUNCA mais vou esquecer esse momento... tentei segurar as lágrimas mas não consegui... fiquei contemplando aquela pequena criatura no meu colo... tão levinha... tão frágil... mas com uma vivência, um sofrimento talvez imensamente superior ao que eu já tivera passado em toda minha vida...

Logo em seguida veio uma criança bicuda, meio marrenta, umas bochechas enormes... com um olhar mais desconfiado ainda... abraçou minha esposa e ficamos ali os quatro... agarrados e curtindo aquele primeiro encontro...

Logo em seguida vieram as outras crianças para conhecer aqueles estranhos que estavam ali naquele momento... descemos para o playground do abrigo e lá notamos uma terrível disputa por atenção... É... aquele momento se tratava de uma grande batalha daquelas crianças tentando mostrar ali quem era o melhor para que fossem levados para nossas casas...

Um desses "guerreiros" era o Nathan... menino negro, de um rosto e sorriso belíssimos, mas que já estava passando de seus 8 anos de idade... o que diminuia consideravelmente suas possibilidades de adoção, pois nós, seres humanos, teoricamente inteligentes, só queremos bebês... pois fica "teoricamente" mais fácil de moldar... Ficamos encantados com a beleza dele e de seus três irmãos... o que dificulta mais ainda a adoção, pois dificilmente, nos dias de hoje, uma família adota e tem condições de adotar de uma vez quatro crianças... Dissemos para ele o quanto ele era lindo e, numa simples frase, ele falou: Não!!! Eu não sou bonito!!! Sou feio!!!
E nós, inocentemente perguntamos: Mas porque?
- E ele respondeu:
Ninguém quer me adotar!!!

Aquilo na hora cortou nossos corações... tentamos consolá-lo de todas as formas, mas tínhamos em mente que nós mesmos também não teríamos como adotá-lo, apesar da vontade... imensa vontade... mas depois lembramos das palavras da psicóloga, de que eles são extremamente inteligentes e manipuladores...

e aí começavam minhas primeiras percepções com essas crianças, que até então não tínhamos nenhuma noção do que poderia vir pela frente... Descobri que tinha muito mais a aprender com eles do que eles comigo...
O aprendizado, a aceitação, a adaptação teria que ser nossa... e não deles... Eles simplesmente são o que são, falam o que pensam, não precisam fingir o que não são...

Enquanto isso, Moisés começou a apresentar um comportamento mais agressivo, visto que sua "possível adoção" estava sendo colocada em risco com aquele monte de crianças disputando os pais que vieram para vê-lo...

Gabriel, pela idade,  ainda não tinha noção do que se passava e brincava naturalmente com as outras crianças...

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